A realidade que se torna espetáculo e o espetáculo que se
veste de realidade. Com ingredientes elaboradamente bem utilizados, a mídia dá
viés hollywoodiano aos fatos da grande rotina social e ainda veste seus
personagens nos ares de mocinhos e vilões (esses últimos podem acabar amargando
a posição de inimigos de uma nação e de forma quase dogmática). É esse o campo
explorado – com cautela – em O Quarto
Poder (Mad City, EUA, 1997): a força que a mídia tem de influenciar os
movimentos dentro da sociedade de acordo com lógicas próprias e a atitude de
estrelismo e irresponsabilidade de seus profissionais, que ferem a ética em
busca de um furo e de pontos de audiência.
Sam Bailey (John Travolta em sobrepeso) é um segurança de
museu de uma cidade do interior norte-americano recém-demitido pela Mrs. Banks
(Blythe Danner), manda-chuva do museu em questão, para corte de gastos.
Revoltado, Sam resolve ter uma conversa séria com sua antiga patroa, levando
uma arma e dinamites para que, segundo ele, “pudesse ser ouvido”. As coisas
saem de controle e Sam faz Banks, uma professora e seus pequenos alunos de uma
escola primária, visitantes ao museu, e um repórter em decadência – que estava
no banheiro, conversando com seu pênis – de reféns. O repórter, Max Brackett
(Dustin Hoffman, eterno Rain Man),
que noticiava justamente os cortes na receita dos museus do Estado, vê a
situação – ainda da porta do banheiro – como uma “matéria quente” que pode
re-alavancar sua carreira e colocá-lo nos holofotes da mídia.
O filme mostra a cada investida de Brackett e de seus
concorrentes como a figura da mão da mídia apontando as verdades que o público
deve acreditar, culminando a batalha para persuadir a opinião geral acerca de
um dos dois lados da história de Bailey: o vilão ou o coitado. Max faz furos ao
vivo de dentro do museu, ao lado do aloprado sequestrador – que mostra como
única motivação a fazer o que fez a preocupação em não ter como garantir a
sobrevivência de sua mulher e filhos. De fora, tais concorrentes de Brackett
mostram uma imagem perversa e criminosa de Sam, até mesmo forjando depoimentos
e informações. Por desatenção, o ex-segurança fere o antigo companheiro negro
de guarita, sendo maquiado, então, como delinquente racista. Na contracena,
Brackett repreende sua companheira de equipe por socorrer o homem ferido, em
vez de filmar sua agonia.
O diretor Costa-Gavras, que mais tarde, novamente, abordou o
desespero causado pela perda de emprego em O
Corte (Le Couperet, França, 2004), enche o filme de simbologias para além
de uma leitura liminar. Desde um sapateador dançando na camada posterior do
ângulo em que Brackett aparece reportando o silêncio e a fuga de um político
suspeito de corrupção logo no início da história ao movimento de
abutre-sobre-carniça que os repórteres faziam a cada pessoa que cruzava a porta
do museu para fora. Pode-se qualificar a produção como metalinguisticamente
hipócrita, mas de forma magistral, a hipocrisia que gratina os argumentos é a
faca – talvez, assim, de dois gumes – que esburga, com a acidez da (auto)crítica,
um universo à vistas perverso que é o do mundo midiático.
No prosseguir da trama, a imagem de Bailey, o protagonista
do “circo” – palavra várias vezes metaforizada no filme – e único personagem
não sucumbido à tentação da fama e do prestígio, e Max, tomado, por sua vez, de
tal tentação, têm seu golpe de misericórdia: o primeiro com sua desastrosa
entrevista exclusiva ao vivo para a TV aberta em horário nobre, com Larry King;
e o segundo com a divulgação de gravações que o incriminam de compactuar com
o segurança delinquente (demérito de Max
que tentou manipular a situação várias vezes para tornar sua notícia cada vez
mais cinematográfica). É nessas cenas que coroa-se o mencionado quarto poder,
quando Larry King promove um verdadeiro julgamento via tubo de íons. Como seu
último passo, ainda (mais) aflito, Sam liberta as crianças e decide se
entregar. Neste ponto Max já está compadecido do personagem de sua grande
reportagem.
Vivemos, hoje, na era da imagem, na era da palavra e, da
prensa de Gutenberg à internet num celular touchscreen, nos transformamos nos
que compõem a plateia e a batuta, com toda liberdade que nos ata, nessa era de
comunicações virtualmente “democráticas”, à necessidade de se estar sempre
informado e, em princípio, de ter um rótulo mercadologicamente aceitável,
preferível acima, até mesmo, da consistência e seriedade de conteúdo. E é aí
que, com ingredientes elaboradamente bem utilizados, a mídia dá viés
hollywoodiano aos fatos da grande rotina social e ainda veste seus personagens
nos ares de mocinhos e vilões. Sam Bailey, por não suportar a pressão da
indumentária vilanesca, desiste literalmente do jogo e Max Brackett, como um
ápice metalinguístico, um paralelo de definição em relação à massa não-amorfa,
mas alienante que se senta na frente da TV (e não só nas cenas do filme),
sintetiza todo o argumento na frase: “Nós o matamos!”
Que seja hipócrita, O Quarto Poder reabre a eterna
discussão, que ultrapassa a prisma que perquire a mídia: até que ponto o que
vemos é a realidade? Até que ponto a notícia a qual estamos nos deparando é
objetiva e não apenas uma sombra daquilo que realmente é? A resposta eu posso
até tentar dar, mas poderia muito bem não ser a verdade, com certeza.
__________________________
Referências
-, -. “O Quarto Poder”; Adorocinema - adorocinema.com; http://www.adorocinema.com/filmes/filme-3852/.
Acesso em 29/05/2012.
CARDOSO, C. E. Torres (Nugen). “O Quarto Poder”; Shvoong.com
- A fonte global de Resumos e Críticas; http://pt.shvoong.com/entertainment/movies/1862802-quarto-poder/.
Publicado em 24/01/2009. Acesso em 30/05/2012.
DANTON, Gian. "A Teoria Hipodérmica da Mídia";
Digestivo Cultural - Editora Perspectiva; http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=621&titulo=A_Teoria_Hipodermica_da_Midia.
Postado em 19/07/2002. Acesso em 15/05/2012.
GRAVAS, Konstantinos. “Mad City”; EUA, Drama, 115 minutos,
colorido, 1997. Produzido por Warner Bros Studios.
JUNGMANN, R. Magalhães. “’O Quarto Poder’ - Teoria
Hipodérmica”; Webartigos - webartigos.com; http://objethos.wordpress.com/2009/11/04/resenha-o-quarto-poder/.
Publicado em 21/09/2009. Acesso em 30/05/2012.
SARAIVA, Roberto. “Resenha: O Quarto Poder
(1997)”; ObjETHOS - Observatório da Ética Jornalística; http://objethos.wordpress.com/2009/11/04/resenha-o-quarto-poder/.
Publicado em 04/11/2009. Acesso em 30/05/2012.
Nenhum comentário:
Postar um comentário