14 de junho de 2012

O preço da beleza

“Bem vinda à selva/ Assista ela te deixar de joelhos/ Eu quero ver você sangrar” é o que canta Axl Rose na poderosa Welcome to the Jungle, faixa que abre Apetite for Destruction (Geffen, 1987), famoso álbum de sua banda, Guns N’ Roses. No videoclipe da música, o cantor, em algumas cenas, está fixo, assistindo às imagens que surgem violentamente aleatórias nas telas das TVs de seu quarto e, em dado momento, aparece preso a uma cadeira, com outras inúmeras telas em sua frente, jorrando “informação”. A mídia, em princípio a publicitária, bombardeia o grande público com valores baseados no consumo em busca de metas inalcançáveis. Isso emprega às pessoas o dever de estar adequado a estes valores para ser digno, ser exemplar, ser feliz.

É em Desirella, curta de animação produzido em 2004 pelo Stone Age Scanners, que somos apresentados à história de uma mulher doente e velha que consegue juventude e sensualidade com um par de sapatos de salto-alto mágicos. Calçada neles ela está sempre linda, atraindo os olhares dos homens e as gentilezas de um mundo que cultua o corpo perfeito. Através disso, ela consegue se firmar como uma mulher poderosa e livre, tendo acesso a toda gama de prazeres da sociedade.

A todos os lugares que vai, calçada em seu salto-alto, a mulher retratada em Desirella está rodeada de propagandas que exaltam o visual. O crescimento massivo da mídia, a partir das décadas de 1970-80, como conseguinte, principalmente, o apelo hollywoodiano à cultura de consumo, voltada para a construção de padrões de beleza inalcançáveis, como já mencionado, é apontado como o pivô do progressivo aumento da busca pelo corpo “perfeito” do mundo em que vivemos hoje e, assim, aumento também da insatisfação de boa parte da sociedade.

Desde épocas primordiais, os conceitos de beleza regeram nossa civilização e, mais do que nunca, hoje vivemos uma época de culto à imagem, culto ao corpo. Isso pode ser o pretexto para levar pessoas a ter uma alimentação balanceada e a praticar esporte, mas também fazer com que se alimentem mal, procurem meios prejudiciais de melhorar sua estética, como o uso de esteróides, anabolizantes, cosméticos, e tratamentos que possam ser perigosos à saúde.

Entretanto, conceituar o que é belo não confere um resultado objetivo, já que a beleza é algo relativo e disso já se falou muito. Conceituar o perfeito também é vão, ao passo de que nada é tão ideal por ser tão humano, filosofias à parte. Em Desirella, a mulher, pelo uso indiscriminado e ininterrupto do salto, lesiona suas próprias pernas e, diante da dor, prefere entrar em torpor a tirar os sapatos (que, a esse ponto, já são parte dela).

“Se você a quer, você vai sangrar/ Este é o preço que você tem que pagar” e “Quando você está no alto, você nunca/ Nunca quer voltar pra baixo” é o que canta Axl, ainda em Welcome to the Jungle. Pobre mulher que, de seu auge de glamour e fama, desaba, pois aquilo que lhe conferiu beleza infalível cobra o preço de sua magia. Enquanto seu amuleto de sucesso a devora literalmente, observa sua imagem estampar as propagandas apologéticas que irão encantar outros tantos e levá-los, talvez, ao mesmo caminho.

Venerar a imagem discrimina as características que tornam cada pessoa única e desmerece o conteúdo que elas têm. Muito antes de preferir estar adequadamente belo, visualmente aceitável, deve-se preferir estar bem consigo mesmo, conhecendo suas próprias virtudes, exaltando (que se entenda celebrando) os próprios limites, pois somos muito mais humanos que deuses competindo num Olimpo de beleza.

Referências:
Guns N’ Roses, Appetite for Destruction (Geffen, EUA, 1987). Produção de Mike Clink; duração 53min 49seg; Universal Music Group.

TOMMASO, M. A. “A referência interna de beleza”; Dove - Artigos e Dicas; http://www.dove.com.br/pt/Universo-Dove/Artigos-e-Dicas/A-referencia-interna-de-beleza.aspx. Acesso em 10/06/2012. 
CAMARGO, O. “Mídia e o culto à beleza do corpo”; Brasil Escola; http://www.brasilescola.com/sociologia/a-influencia-midia-sobre-os-padroes-beleza.htm. Acesso em 10/06/2012.
Anexo:
Desirella (Stone Age Scanners, 2004) 

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