Aqueles beijos e abraços melosos de despedida.
Até a próxima.
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Questão:
A partir do
trecho: “Vivemos em um momento em que as referências tradicionais
desapareceram, em que não sabemos mais exatamente quais podem ser os
fundamentos possíveis de uma teoria ética. O que é que, hoje, nos permite dizer
que uma lei é justa? Nós o ignoramos. É num vazio absoluto que a ética
contemporânea se cria...” (RUSS,
Jacqueline. O pensamento ético contemporâneo. São Paulo: Paulus, 1999).
Indagar: como propor uma ética
hoje?
A ideia de liberdade
radical pregada na sociedade moderna contrasta com uma busca por uma ética
universal e necessária. O primeiro ponto em que essa busca se macula é na
realidade de que o indivíduo não é um ser universal. A partir do momento em que
o homem, através de sua consciência de espaço-tempo, se desprende de um
programa natural, presente em suma, por exemplo, na existência de um pé de
feijão ou na de um protozoário qualquer, seu comportamento passa a ser um
produto de seus impulsos naturais, dos conceitos de seu tempo e de sua
civilização, de suas experiências pessoais e de sua própria razão. Tais
variáveis anulam um resultado universal e objetivo para a equação.
Este relativismo
pode explicar, mas não dar cabo da questão. Para propor um comportamento ético
para o hoje, é necessário em gênese conceituar a ética. Em Sócrates, é possível
perceber que a imagem do ser ético contém-se na busca pela felicidade e
realização, sendo esta no plano individual e na sua comunidade. Mas como
realizar-se dentro da sociedade? Sócrates, Platão e Aristóteles sintetizam a
realização do homem no exercício do conhecimento e dos deveres em sociedade,
deveres esses expressos, juntamente ao plano tomista, na justiça (dar a cada um
o que é devido), a temperança (moderação dos apetites), a coragem (capacidade
de enfrentar os riscos e perigos controlando o medo), e a prudência
(discernimento do justo e do injusto, do bem e do mal).
Objetivar metas
para a ação homem em comunidade, entretanto, ainda soa tendencioso, vendo-se que
os valores de justiça, temperança, coragem e prudência, apesar de uma roupagem
perfeita, são obras do senso de cada um, estão dispostas ao discernimento
individual. Espinosa ataca a temperança como um parasita capaz de atar as ações
da paixão e do impulso humano. A prisão que se cria no sistema baseado nesse
valor socrático-tomista pode ferir contra o instinto humano mais essencial,
segundo Espinosa, o da autopreservação. Esse instinto dá à luz um sentimento de
egoísmo, não bélico e agressivo como na pregação de Nietzsche, mas que procura manter a existência. Esse é o sentido
básico e primário de qualquer vida, seja a de um humano como Espinosa ou Obama,
seja a de um pé de feijão ou a de um protozoário qualquer.
Charada: qual a
diferença entre o ser humano, o pé de feijão e o protozoário qualquer? Antes de
uma resposta aristotélica, organizando os conceitos de cada ponto da charada em
gavetas como no romance da história da filosofia de Gaarder, podemos ter uma
resposta enfocada no contexto em questão presente no pensamento kantiano: o que
diferencia a existência humana de qualquer outra no mundo é a razão, a
capacidade de raciocinar. Ao contrário de Espinosa e até mesmo de Rousseau, a
ética e as virtudes do homem não estão no interior do seu ser, num confim
apenas alcançado pela busca, exercício e fé na divindade interior humana. O
comportamento é autônomo e, desprendido de um programa natural, segue uma lei
própria, irrompida na consciência. Mas nem Kant, nem Espinosa se mostram
evidentes e nem completamente refutáveis. A união entre a razão e a emoção é a
base para o comportamento e as duas coisas são natas do ser humano. O prazer ou
o desprazer que sentimos em determinada ação imprime o valor que damos à tal.
Um dia aprendemos que colocar a mão no fogo queima e é muito provável que não
voltemos a fazer isso propositalmente.
A questão do
prazer e do desprazer na relação com o comportamento humano não fecha um
sistema ético. David Hume em seu projeto ético-filosófico relaciona o
sentimento moral com a sensação de prazer e ou de dor, mas sua ideia de
utilitarismo sensual, superficialmente, esbarra na problemática do prazer
imediato. Um indivíduo prova da prática sexual e pode sentir prazer, além disso,
é influenciado por sua natureza a fazê-lo, esse prazer pode, contudo, tornar o
indivíduo escravo de um vício sexual apoiado, inclusive, por sua biologia.
Outro exemplo de refutação ao projeto de prazer e dor vem de um fenômeno social
muito hodierno, o roubo. A prática do furto pode trazer um sentimento de prazer
a quem rouba quando este percebe a facilidade com que pode obter as coisas a
partir apenas de movimentos ágeis e discretos. Quanto à dor ou a antipatia – em
sobrepeso à simpatia ainda de Hume – também abala o sistema do utilitarismo no
que podemos, novamente nos dias atuais, notar, por exemplo, no hábito de jogar ou
não lixo nas ruas ou de dirigir ou não embriagado. Ao primeiro, em sua negação,
é possível remeter preguiça, ao segundo, retornamos à ideia de prazer. Hume
aborda um ponto, porém, muito interessante: o dever de se pensar no que é
diretamente útil para as pessoas. E aqui, unimos na foto John Stuart Mill, que
nos diz que a ação deve gerar o bem da
maioria.
O homem deve construir seu plano ético através do seu autoconhecimento, tirando de seus impulsos e apetites suas metas dentro de uma sociedade e, nessa consciência de sociedade, usar de sua razão para deduzir o que seria bom para si e para sua comunidade. Somos seres racionais, mas ainda somos animais. Um enxame de abelhas possui suas divisões comunais, cada abelha tem seu papel dentro de seu grupo, no entanto esse papel é programado natural e instintivamente desde seu nascimento. Como já foi dito, o homem está desatado desse sistema por sua capacidade de escolha. Resumidamente, o plano ético entra aí, no que indagamos sobre os grifos: manter a existência e gerar o bem da maioria.
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