Era uma quarta-feira e a professora de Leitura e Produção pediu que escrevêssemos um depoimento que contasse como era nosso relacionamento com os livros, a palavra, a leitura em si e que ilustrássemos, assim, nossa opinião sobre o Brasil de leitura que vivemos. Acho que é isso mesmo. E da minha infecta cabeça, em tons alaranjados, surgiu a crônica abaixo.
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Estante da Sala
O cheiro doce, particularmente,
daqueles livros antigos de biblioteca, capa gasta, folhas pálidas, exalaram
desde cedo. No guarda-roupa da minha mãe, títulos românticos, clássicos
revezavam-se e eu, vez por outra, pedia que me contasse a história. Noutras manhãs
cinzas de uma São Paulo nostálgica, eu e minha irmã cruzávamos uma parte do
bairro até uma biblioteca pública, aquela de onde vinham os livros antigos de
cheiro doce, pálidos.
A sede, então, semeada, fez
raízes tão sólidas e compulsivas que até hoje me fazem pular de título em
título sem que eu possa, ao menos, terminar o primeiro, ou me prendem aos dois
simultaneamente.
Sede semeada, de raízes tão
sólidas que me levaram, muito além de (querer) ler, (querer) escrever. Compulsivo, então. E esse paralelo se multiplicou, me tornando um apaixonado
por arte, que parece não ser difícil perceber. Qualquer atividade textual,
produtiva ou crítica, ela queria me ouvir, queria me ler, como se isso elevasse
sua auto-condição de professora.
E nesse prisma, nesse ambiente,
respirado esse ar, sinceramente não entendo como pessoas não enxerguem a beleza
nas páginas dos livros ou na ponta de uma caneta. Muito mais que um problema
(de som clichê) do poder público, de braços cruzados à educação e à cultura,
não ler e não escrever é uma prisão pra alma e pra mente, trancada pelo próprio
prisioneiro, esse brasileiro não-leitor.
PS.: Lamento o tempo parco, o porquê de poucas linhas.
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